No extremo norte do Brasil, onde o mapa já se confunde com a Guiana e a Venezuela, existe um planalto esquecido pelo turismo de massa. A Serra do Tepequém, a 220 quilômetros de Boa Vista, é o segundo ponto mais alto de Roraima — 1.022 metros de altitude — e guarda uma história fascinante de garimpo de diamantes, cachoeiras monumentais e uma solidão que só os lugares verdadeiramente remotos conseguem oferecer. Menos de 5 mil turistas visitam o local por ano. Se você gosta de destinos onde o silêncio ainda é a trilha sonora principal, siga lendo.

A história dos diamantes

Entre os anos 1930 e 1940, a Serra do Tepequém foi palco de uma corrida do diamante que atraiu cerca de 3 mil garimpeiros para a região. Eles vieram de todos os cantos do Nordeste, de outras partes da Amazônia, movidos pela promessa de pedras preciosas enterradas na terra vermelha do lavrado roraimense. Hoje, o que restou são os buracos abertos na paisagem, as máquinas enferrujadas e uma atmosfera de cidade fantasma em alguns pontos do planalto.

Visitar as antigas áreas de garimpo é uma experiência carregada de história. Você caminha entre escavações abandonadas, encontra ferramentas corroídas pelo tempo e ouve, se tiver sorte, os causos contados por moradores que viveram aquela época. O garimpo do Paiva e o garimpo do Tepequém são os mais acessíveis e oferecem um mergulho profundo nesse passado pouco conhecido do Brasil.

Cachoeira do Paiva — 80 metros de queda livre

A grande joia natural da serra é a Cachoeira do Paiva, com 80 metros de altura — uma das maiores quedas d’água do norte da Amazônia. O acesso exige uma trilha de cerca de 40 minutos por dentro da mata fechada, descendo por raízes e pedras até chegar à base da cachoeira. O poço é fundo e gelado, perfeito para um mergulho depois da caminhada. A sensação de estar aos pés de uma queda com quase 30 andares de altura, no meio do nada, cercado por paredes de rocha cobertas de musgo, é algo difícil de traduzir em palavras.

A Cachoeira Barata, com 50 metros de queda, é outra parada imperdível — 20 minutos de trilha até uma piscina natural cercada por samambaias. O barulho da água abafando qualquer som humano é o verdadeiro luxo.

Mirante do Tepequém — 360 graus de horizonte

No topo do planalto, o Mirante do Tepequém oferece uma vista panorâmica de 360 graus que abrange o lavrado roraimense — aquela savana amazônica única, com árvores retorcidas e gramíneas — e, em dias excepcionalmente claros, o Monte Roraima ao longe, na tríplice fronteira. O pôr do sol ali é um espetáculo à parte: o céu ganha tons de laranja, roxo e rosa enquanto o vento sopra constante no alto da serra.

Como chegar — e por que você precisa de um 4x4

Chegar à Serra do Tepequém não é para qualquer um. O voo até Boa Vista (BVB) é o primeiro passo — há conexões regulares de Brasília, Manaus e São Paulo. De lá, são três a quatro horas de estrada pela RR-203, uma rodovia de terra que varia entre razoável e desafiadora conforme a época do ano. Um carro 4x4 é obrigatório. Não tente com um veículo de passeio — você não vai passar dos primeiros quilômetros de subida, principalmente no período chuvoso.

Uma vez no planalto, não há posto de combustível. Abasteça em Boa Vista ou em Amajari, o último povoado antes da subida. Também não há sinal de celular na maior parte do trajeto e do planalto — o que para muitos é justamente o ponto alto da viagem.

Melhor época e dicas práticas

A estação seca vai de outubro a abril. É quando as trilhas estão mais firmes, as cachoeiras com volume bom de água e o céu aberto permite enxergar o horizonte do mirante. De maio a setembro chove muito, a estrada de terra vira um atoleiro e algumas cachoeiras ficam perigosas para banho.

Contrate um guia local. As trilhas não são todas sinalizadas, e a região tem animais que exigem respeito — cobras, aranhas e onças, ainda que raramente vistas. Guias de Amajari conhecem cada atalho, cada poço secreto e cada história do garimpo.

Leve tudo: água, comida, lanterna, roupa de frio (as noites no planalto chegam a 15°C) e dinheiro vivo. Não há comércio além de algumas pousadas com refeições caseiras. O tucunaré frito é o prato mais comum, mas não se surpreenda com um beiju com manteiga de garrafa no café da manhã — marca registrada da cozinha roraimense.

Se você está montando um roteiro de aventuras pela Amazônia, vale a pena conhecer também Presidente Figueiredo (AM), que reúne dezenas de cachoeiras e cavernas num só município. Enquanto Presidente Figueiredo é mais acessível e estruturada, a Serra do Tepequém é o destino para quem busca isolamento e uma conexão crua com a natureza — cada uma tem sua própria alma.

A Serra do Tepequém não é um lugar para passar — é um destino que se conquista. A estrada de terra, a falta de sinal, o 4x4 rangendo na subida, tudo isso faz parte do ritual de chegada. E quando você finalmente está lá, em cima do planalto, ouvindo só o vento e o som distante de uma cachoeira, entende por que tão pouca gente vai — e por que quem vai, volta diferente.


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